sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Resenha: Sal - Leticia Wierzchowski

A Intrínseca sempre foi uma das minhas editoras favoritas. Não consigo lembrar de um livro sequer que eu tenha lido deles que não fosse no mínimo "bom". Não que eu tenha lido todo o catálogo deles, mas ah, eu gosto muito dela. A única coisa que eu lamentava era o fato de que o único livro brasileiro deles era algo sobre futebol, eu acho. Vocês devem imaginar como eu fiquei feliz em ler sobre a publicação do primeiro romance brasileiro pela Intrínseca. E eu fui atrás dele assim que pude comprar o livro.



Sal é um livro que eu posso chamar de denso. Apesar de ter pouco mais de 230 páginas, eu levei vários dias para terminar de lê-lo. Cada capítulo, cada cor, cada história me absorvia a ponto de eu ter vontade de parar de ler para poder aproveitar aquele ponto específico. O livro tem sua narração extremamente poética, descrições e escrita encantadores.

Sal nos conta a história da família Godoy. De algumas gerações dessa família que há um bom tempo cuida do farol de uma ilha do sul chamada La Duiva. O farol, sendo coisa, sendo vivo, sendo pedras e luz, observa as gerações passarem.

Flora quer ser escritora, e é por seu livro que a história começa a ser contada. Intercalando sua ficção com a narrativa em primeira pessoa dela mesma, fazendo o que eu chamaria de "diário de escrita". Ela nos conta a história (Fictícia ou não) de sua mãe, Cecília, solitária na ilha, depois de todos os seis filhos terem partido de algum jeito, e com um farol enlouquecido após a morte de Ivan, seu marido. Cecília tricota. Tricota um longo tapete, para cobrir os degraus do farol, e no tricô ela conta a história de sua família, dando para cada um de seus parentes uma cor no tapete. A própria Cecília (Branco), tricotando a história através do livro da filha, Ivan (Verde), o marido de Cecília, Lucas (Azul), o primogênito, parecidíssimo com o pai, Julieta (Sépia), com seus problemas, Orfeu (Vermelho), o trágico que carregava o Inferno nas costas, Eva (Magenta) e Flora, (cuja cor não nos é mostrada), as gêmeas, uma fogosa e a outra recolhida, não poderiam ser mais diferentes, e Tiberius (Amarelo), o caçula que amava estrelas e via o destino em seus sonhos, e desde o início viu o que o livro de Flora causaria.
De certa forma, a literatura de Flora ganha vida. O que ela põe no papel escapa das folhas e de algum jeito se torna real. Flora nos conta o futuro e passado de sua família, sem saber que em suas linhas escreve o destino.
Também em suas linhas, sem saber, ela escreveu Julius, um inglês que após ler o livro de Flora, veio até a ilha para conhecer a escritora. Julius foi onde a tragédia começou. Julius foi a desgraçada - mais uma, devo acrescentar - da família Godoy.

Eu estou até agora encantado com o que li, e tocado de alguma forma. Sal é um livro que te traga para a ilha de La Duiva, com sua areia, seus ventos, seus deuses do mar, seu farol acompanhando gerações da família Godoy, e te envolve na poesia do lugar.


O gosto de "Sal" é um gosto que eu não vou esquecer tão cedo.

Páginas: 239
Editora: Intrínseca
ISBN: 978-85-8057-381-7

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