Sal é um livro que eu posso chamar de denso. Apesar de ter pouco mais de 230 páginas, eu levei vários dias para terminar de lê-lo. Cada capítulo, cada cor, cada história me absorvia a ponto de eu ter vontade de parar de ler para poder aproveitar aquele ponto específico. O livro tem sua narração extremamente poética, descrições e escrita encantadores.
Sal nos conta a história da família Godoy. De algumas gerações dessa família que há um bom tempo cuida do farol de uma ilha do sul chamada La Duiva. O farol, sendo coisa, sendo vivo, sendo pedras e luz, observa as gerações passarem.
Flora quer ser escritora, e é por seu livro que a história começa a ser contada. Intercalando sua ficção com a narrativa em primeira pessoa dela mesma, fazendo o que eu chamaria de "diário de escrita". Ela nos conta a história (Fictícia ou não) de sua mãe, Cecília, solitária na ilha, depois de todos os seis filhos terem partido de algum jeito, e com um farol enlouquecido após a morte de Ivan, seu marido. Cecília tricota. Tricota um longo tapete, para cobrir os degraus do farol, e no tricô ela conta a história de sua família, dando para cada um de seus parentes uma cor no tapete. A própria Cecília (Branco), tricotando a história através do livro da filha, Ivan (Verde), o marido de Cecília, Lucas (Azul), o primogênito, parecidíssimo com o pai, Julieta (Sépia), com seus problemas, Orfeu (Vermelho), o trágico que carregava o Inferno nas costas, Eva (Magenta) e Flora, (cuja cor não nos é mostrada), as gêmeas, uma fogosa e a outra recolhida, não poderiam ser mais diferentes, e Tiberius (Amarelo), o caçula que amava estrelas e via o destino em seus sonhos, e desde o início viu o que o livro de Flora causaria.
De certa forma, a literatura de Flora ganha vida. O que ela põe no papel escapa das folhas e de algum jeito se torna real. Flora nos conta o futuro e passado de sua família, sem saber que em suas linhas escreve o destino.
Também em suas linhas, sem saber, ela escreveu Julius, um inglês que após ler o livro de Flora, veio até a ilha para conhecer a escritora. Julius foi onde a tragédia começou. Julius foi a desgraçada - mais uma, devo acrescentar - da família Godoy.
Eu estou até agora encantado com o que li, e tocado de alguma forma. Sal é um livro que te traga para a ilha de La Duiva, com sua areia, seus ventos, seus deuses do mar, seu farol acompanhando gerações da família Godoy, e te envolve na poesia do lugar.
O gosto de "Sal" é um gosto que eu não vou esquecer tão cedo.
Páginas: 239
Editora: Intrínseca
ISBN: 978-85-8057-381-7

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