Passava
das duas da madrugada, ele não tinha bem certeza do horário, mas não é como se
estivesse naquele instante interessado nisso o suficiente para abaixar os olhos
e olhar para o relógio no canto direito da tela de seu computador.
Flávio
estava sentando à mesa do computador havia horas, pensando em quando o sono
venceria o tédio na luta que eles estavam travando e ele finalmente desligaria
aquela máquina e iria dormir. Naquele momento ele estava fechando o último
vídeo sobre skate que veria naquela madrugada. Algo um pouco mórbido envolvendo
quedas que causavam ferimentos feios e que as vezes matavam; em três anos praticando longboard
jamais havia presenciado nada tão grave de perto. Alguns ossos quebrados ele já havia
visto, alguns ralados complicados que ardiam por dias ele já havia sentido nas
próprias costas, daquele tipo de ralado que vai do meio das costas até uma das nádegas, e que deixa bastante complicado ficar em qualquer posição que não em pé
nos primeiros dias.
Mas
naquela hora não havia ralados, cortes, ossos, nenhum ferimento presente por
ali além dos que estavam no vídeo que ele fechava. Por fim ele ficou interessado
no horário e passou os olhos pelo relógio. Ele clicou na aba do navegador que
levava ao facebook e olhou para o relógio novamente – não havia de fato
prestado atenção na hora na primeira vez que olhara –. Duas e sete da manhã. Ele
suspirou, sentindo que o sono estava prestes a começar a virar a batalha e que
logo outra começaria, a que envolvia o sono e a preguiça de tomar banho antes
de dormir, esta uma batalha bem mais rápida de se resolver.
Ele
decidiu que só ia dar uma olhada no que havia de novo no facebook – como se
muita gente tivesse o incrível costume de postar dezenas de artigos
interessantes naquele horário – e que finalmente iria tomar banho. Ou dormir
direto, dependendo da preguiça no momento em que chegasse à porta do banheiro.
Ele
girou a pequena rodinha que ficava entre os dois botões de seu mouse uma vez e
não viu nada de interessante. Girou a rodinha uma segunda vez e logo posts que
ele já havia visto surgiram. Ele suspirou. Dentro de sua mente o tédio estava
ao chão e o sono segurava a espada, olhando para o imperador que iria apontar
seu polegar para cima ou para baixo, decidindo se a espada se sujaria naquela
noite.
Flávio
clicou em “Página Inicial” uma última vez, apenas por costume, e antes da
página carregar ele já estava com o mouse em cima da palavra “sair”, mas ele
não clicou.
“Paloma
alterou sua foto do perfil”, estava escrito, e aquela foto era nova. O tédio
deu um chute na canela do sono e rolou para o lado, voltando para a batalha.
Ele
não se lembrava bem de quando havia sido sua última conversa com Paloma. Ela
era uma garota com quem ele estudara dois anos antes e com quem nunca teve uma
conversa longa o suficiente para criar algum tipo de intimidade. Flávio achava
que Paloma provavelmente seria uma garota muito divertida, mas simplesmente
aconteceu de que eles nunca se conheceram mesmo. E ali estava uma foto da
garota.
A
foto não era nada diferente do que costumam ser fotos de perfis. O rosto da
garota de cabelos curtos estava no centro da imagem que estava um pouco cinza,
provavelmente graças à sombra de algumas nuvens pesadas de chuva. Era possível
ver os ombros da garota cobertos pela camiseta e ela sorria com os lábios
fechados, algo em que Flávio normalmente teria reparado – ele sempre reparava
em garotas que sorriam de lábios fechados –, mas naquele momento ele só pode
olhar para os olhos da garota na foto.
Um
dos olhos estava levemente mais fechado que o outro, ambos um pouco comprimidos
em um formato que fazia parecer que eles estavam sorrindo junto de sua dona.
Não havia olheira alguma ali, mas com os olhos apertados daquela forma havia
uma leve bolsinha de pele formada embaixo deles, e talvez elas ajudassem a dar
o aspecto de “olhos sorridentes”, algo no qual ele também teria reparado em
qualquer outro momento. Mas não daquela vez.
Dentro
dos olhos que não estavam completamente abertos era possível ver um reflexo.
Não era o reflexo de nada especial, era apenas luz sendo refletida pelas íris
escuras da garota, mas Flávio tinha certeza de que estava vendo alguma coisa ali. Ele não sabia dizer
exatamente o quê, mas havia alguma coisa.
Ele
apertou a combinação de botões que lhe permitiria abrir outra aba do navegador,
sem ter certeza de porque estava fazendo aquilo, e no exato momento em que ele
clicou nas teclas e a nova aba começou a se abrir, ele viu algo que não deveria
estar acontecendo.
Ele
voltou rápido para a aba anterior, observando novamente a foto da garota. Ela
tinha acabado de piscar?
A
foto ainda estava parada, como de fato deveria estar, e por mais alguns
segundos, Flávio encarou aqueles olhos que por algum motivo estranho chamavam
sua atenção.
Ele
devia estar com mais sono do que imaginava. Devia ser só isso. Ele fechou –
fazendo cada movimento de dedos devagar, prestando atenção na foto – a aba,
dessa vez sem ver nenhuma piscadela ou qualquer movimento, então desligou o
computador e foi para a o chuveiro.
Quando
se deitou ele já havia conseguido tirar de sua mente a imagem da foto piscando,
mas aqueles olhos ainda estavam na cabeça. O que é que ele havia visto naquele reflexo?
Tinha mesmo alguma coisa nele?
No
dia seguinte, ao chegar em casa depois de um dia na faculdade e uma
saída com os amigos, pouco depois das nove da noite, ele novamente se sentou ao
computador, lembrando-se da foto. Foi fácil encontrar o perfil da garota em sua
lista de amigos e como ela não havia postado mais nada naquele dia, a foto
ainda estava ali, a primeira coisa da lista, dessa vez acompanhada de alguns “likes”
e comentários que na verdade apenas continham variações do clássico “Linda!”
que ocupavam boa parte das fotos do tipo.
Ele
sorriu. Dessa vez ele conseguiu reparar mais na foto – ele reparou no sorriso
de lábios juntos e na curvatura dos olhos que faziam com que eles também
parecessem sorrir – e de fato, era uma foto muito bonita. Mas ele sabia muito
bem qual era o motivo que tinha para ter ido ver aquela foto, agora sem sono
algum.
O
reflexo nos olhos tinha um formato ondulado e era bastante brilhoso. Não
parecia ser nada além de luz, mas de alguma forma Flávio tinha certeza de que
aquilo não podia ser apenas luz.
Ele
olhou rapidamente as outras fotos da garota, se decepcionando por não encontrar
nelas nada além de uma garota bonita com quem ele estudara algum tempo antes.
Era apenas aquela foto, eram apenas aqueles olhos.
Ele
voltou para a foto e a encarou por mais alguns segundos. Cansado de olhar, ele
então se levantou para buscar um copo de água.
Quando
Flávio voltava para sua mesa, entrando pela porta do quarto, olhando para o
monitor de um ângulo diferente, ele travou. Talvez aquilo fosse apenas
impressão, mas a foto estava olhando pra ele? A posição dos olhos... Havia
mudado?
Mas
o copo de fato se espatifou no chão quando ele deu mais um passo, porque dessa
vez ele teve certeza. A foto havia piscado.
Devagar,
com a respiração presa, Flávio se aproximou de seu computador, vendo claramente
que aqueles olhos estavam acompanhando seus movimentos, que aquele reflexo de
luz se movia conforme ele também se movia. Quando ele se sentou a foto ousou
outro movimento. O sorriso, até então de lábios fechados, se abriu. Em algum
lugar, lá no fundo, junto com sua sanidade, ele se decepcionou com isso.
Preferia sorrisos de lábios fechados. Mas não havia espaço para pensar naquilo
porque o que ele estava olhando era uma foto – ele tinha certeza de que era uma
foto – que estava sorrindo para ele. Agora a foto inteira, não apenas os olhos,
lhe passavam aquela sensação estranha.
A
moça na foto – e ele tinha certeza de que aquela não era Paloma, pois Paloma
naquele momento devia estar se preparando para dormir, já que o dia seguinte
era uma terça-feira , e não sorrindo para ele do computador – acenou para ele
como se a foto fosse na verdade uma janela e ela estivesse apenas do outro
lado. Boquiaberto ele não reagiu por alguns instantes.
—
Você quer... Alguma coisa?
Ele
fez a pergunta, inseguro, sem ter certeza sequer se ela podia ouvir o que ele
disse, mas se aliviou quando notou que a foto, de certa forma ansiosa, balançou
a cabeça positivamente.
—
E o que é?
A
garota da foto olhou para os lados, mordendo os lábios, parecendo um pouco
nervosa, e então seus olhos se arregalaram como se houvesse tido uma ideia
brilhante. Ela apontou para o canto da foto e ele procurou por algo.
—
O que? No canto da foto?
A
garota balançou a cabeça negando e erguendo mais seu braço, apontando bem para
o canto superior esquerdo da foto. Ele seguiu com os olhos o dedo dela e viu
que ela apontava para a foto de Paloma. A mesma foto que se movia ali a sua
frente, mas a miniatura do perfil da garota. Aquela foto não se movia. Tinha
olhos sorridentes, tinha os lábios fechados, mas nela não havia nada fora do
comum. Era a foto de perfil de uma garota bonita e apenas isso.
—
Você quer a Paloma?
Flávio
ficou um pouco assustado. Com que tipo de entidade ele estava lidando ali? Até
aquele momento não havia parado para pensar nisso – não havia parado para
pensar em nada, na verdade - e aquilo podia muito bem ser alguma espécie de
demônio. Flávio viu a garota na foto balançar a cabeça novamente. Ela então
passou os braços pelos cantos de sua foto, indicando a própria imagem, e então
apontou para a foto de Paloma.
—
Você quer que eu te mostre pra ela?
A
garota na foto sorriu abertamente, os olhos bem abertos, e balançou a cabeça, confirmando.
—
Eu... Eu tenho opção?
O
sorriso então diminuiu, devagar, e os olhos se entristeceram. Ela os abaixou e
confirmou com a cabeça. Ele não precisava fazer aquilo se não quisesse. Ela
então olhou para ele de novo, súplica em seus olhos.
***
Flávio
desceu do ônibus depois de menos de dez minutos dentro dele. Devia estar há
três quilômetros de casa, no máximo, e na verdade podia ter caminhado, mas era
uma noite um pouco fria e justamente quando ele passava pelo ponto, o ônibus
apareceu.
Ele
tirou o celular do bolso do casaco, olhando para a imagem que ele havia passado
para o aparelho, junto de o-que-quer-que-fosse-que-estivesse-na-imagem. A moça da foto
olhava por sua janela, ansiando por ele mostrar para ela onde exatamente
estavam. Ele ergueu a tela do celular para a rua e depois olhou para ela
novamente.
A
garota da foto virou de costas para Flávio e apontou para a parede atrás dela
na imagem, o que Flávio imaginou querer dizer que ele devia ir em frente, na
direção em que ela apontava, o que ele fez. Sempre deixando a moça da foto ver
o caminho, ele seguiu por alguns minutos as instruções dela, passando por algumas
ruas sem movimento às onze horas da noite, ruas cheias de casas iluminadas por
lâmpadas de varandas e janelas que davam para cômodos de luz acesa. Quando ele
chegou em frente a um sobrado azul que tinha um portão branco, a menina da foto
se agitou, apontando para o sobrado.
—
Essa aqui? Eu tenho que chamar ela?
A
foto balançou a cabeça afirmando que sim.
Respirando
fundo, Flávio se aproximou do portão e procurou o botão da campainha.
Um
pânico forte tomou conta do garoto depois de ele ter apertado o botão. O que
ele devia fazer? Apenas mostrar a foto para a garota e esperar ela dar um jeito
de falar com a imagem? Esperar que ela não saísse correndo ao ver uma imagem se
mexer daquele jeito? E se ele tivesse enlouquecido e apenas estivesse
imaginando os movimentos, a garota veria apenas uma foto de si mesma e pensaria
que ele estava perseguindo ela ou coisa do tipo. O que devia fazer?
Então
Paloma saiu de dentro de casa.
Ela
estava vestindo calças jeans, um par de pantufas e ele podia ver a camisola
dela por baixo do casaco pesado que a garota estava fechando para sair naquele
frio depois de ele ter provavelmente tocado a campainha minutos antes de ela
entrar debaixo das cobertas. Os cabelos eram curtos como na foto, mas o rosto
não mostrava um sorriso, mas sim um pouco de preocupação, provavelmente por
causa do horário.
—
Flávio? Flávio Moura? O que você está fazendo aqui?
Ela
se aproximou do portão, reconhecendo ele e trocando a expressão preocupada por
uma expressão curiosa e levemente desconfiada, erguendo uma das sobrancelhas.
Ele
olhou novamente para a tela do celular e pode ver o rosto aflito da mesma
garota que estava à sua frente balançar a cabeça apressadamente, quase uma
súplica para que ele virasse o celular para ela.
—
Eu... Eu não sei bem. Vim te mostrar isso aqui.
Ele
virou a tela do celular para a garota, colocando o braço entre as grades do
portão.
Primeiro
a expressão dela foi de curiosidade, em seguida, surpresa, mas por fim, ela
começou a chorar, e ele não entendeu por quê.
—
Posso?
Ela
perguntou entre as lágrimas, esticando as mãos para o aparelho sem tirar os
olhos dele. Ele deixou que ela tirasse o celular de suas mãos e a viu cair de
joelhos, ainda chorando. Havia uma luz toda especial saindo da tela de seu
telefone e a garota colocou o celular no chão, com a tela apontando para cima.
Ele mandava uma luz para o ar, colocando uma iluminação disforme, que parecia
estar se esforçando em montar uma imagem sobre o celular. A garota olhava para
essa imagem com firmeza, prestando atenção e ainda chorando.
—
Eu também te amo!
Depois
dessas palavras, a garota sorriu junto com suas lágrimas, e a luz começou a
ficar mais fraca. Logo não havia mais luz, apenas a do celular. A garota olhou
para ele, pegou o aparelho do chão e o entregou para o garoto.
Na
tela havia a mesma foto do perfil da garota, ela estava na mesma posição, e não
havia nada que chamasse a atenção de maneira estranha, mas havia algo novo na
foto.
Ao
lado da garota havia uma mulher. Elas eram bastante parecidas, sim, mas a
mulher era mais velha. Ela estava dando um beijo na bochecha da garota, e
Flávio lembrou-se daquele rosto. Aquela era a mãe de Paloma, que havia morrido
pouco mais de um ano antes em um acidente de carro.
—
Será... Será que você pode me passar essa foto depois?
A
voz dela ainda era chorosa, mas tinha um tom de alegria.
Ele
olhou para ela e sorriu, entendendo um pouco do que havia acontecido ali.
—
Posso, posso sim.
Ela
colocou a mão no bolso do casaco e apertou o botão do controle do portão, deixando-o se
abrir um pouco. Então a garota deu um passo na direção de Flávio e o abraçou.
—
Obrigada. Talvez outra hora eu te explique o que ela me disse e porquê. E então
você pode me explicar sobre como isso aconteceu também.
Ela
falava baixinho e meio rindo, meio chorando.
—
É sério, obrigada.
Ela
então soltou Flávio, se despediu dele e entrou em casa. Eles podiam conversar
depois, agora era um momento dela.
Flávio
olhou novamente para a foto da mulher beijando sua filha e sorriu. Aquilo sim
era algo especial. Ele se virou e caminhou para casa, mãos nos bolsos quentes,
sorriso no rosto, feliz pelo que havia feito por uma mãe e sua filha naquela
noite.
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