segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Foto

            Passava das duas da madrugada, ele não tinha bem certeza do horário, mas não é como se estivesse naquele instante interessado nisso o suficiente para abaixar os olhos e olhar para o relógio no canto direito da tela de seu computador.

            Flávio estava sentando à mesa do computador havia horas, pensando em quando o sono venceria o tédio na luta que eles estavam travando e ele finalmente desligaria aquela máquina e iria dormir. Naquele momento ele estava fechando o último vídeo sobre skate que veria naquela madrugada. Algo um pouco mórbido envolvendo quedas que causavam ferimentos feios e que as vezes matavam; em três anos praticando longboard jamais havia presenciado nada tão grave de perto. Alguns ossos quebrados ele já havia visto, alguns ralados complicados que ardiam por dias ele já havia sentido nas próprias costas, daquele tipo de ralado que vai do meio das costas até uma das nádegas, e que deixa bastante complicado ficar em qualquer posição que não em pé nos primeiros dias.

            Mas naquela hora não havia ralados, cortes, ossos, nenhum ferimento presente por ali além dos que estavam no vídeo que ele fechava. Por fim ele ficou interessado no horário e passou os olhos pelo relógio. Ele clicou na aba do navegador que levava ao facebook e olhou para o relógio novamente – não havia de fato prestado atenção na hora na primeira vez que olhara –. Duas e sete da manhã. Ele suspirou, sentindo que o sono estava prestes a começar a virar a batalha e que logo outra começaria, a que envolvia o sono e a preguiça de tomar banho antes de dormir, esta uma batalha bem mais rápida de se resolver.

            Ele decidiu que só ia dar uma olhada no que havia de novo no facebook – como se muita gente tivesse o incrível costume de postar dezenas de artigos interessantes naquele horário – e que finalmente iria tomar banho. Ou dormir direto, dependendo da preguiça no momento em que chegasse à porta do banheiro.

            Ele girou a pequena rodinha que ficava entre os dois botões de seu mouse uma vez e não viu nada de interessante. Girou a rodinha uma segunda vez e logo posts que ele já havia visto surgiram. Ele suspirou. Dentro de sua mente o tédio estava ao chão e o sono segurava a espada, olhando para o imperador que iria apontar seu polegar para cima ou para baixo, decidindo se a espada se sujaria naquela noite.

            Flávio clicou em “Página Inicial” uma última vez, apenas por costume, e antes da página carregar ele já estava com o mouse em cima da palavra “sair”, mas ele não clicou.


            “Paloma alterou sua foto do perfil”, estava escrito, e aquela foto era nova. O tédio deu um chute na canela do sono e rolou para o lado, voltando para a batalha.

            Ele não se lembrava bem de quando havia sido sua última conversa com Paloma. Ela era uma garota com quem ele estudara dois anos antes e com quem nunca teve uma conversa longa o suficiente para criar algum tipo de intimidade. Flávio achava que Paloma provavelmente seria uma garota muito divertida, mas simplesmente aconteceu de que eles nunca se conheceram mesmo. E ali estava uma foto da garota.

            A foto não era nada diferente do que costumam ser fotos de perfis. O rosto da garota de cabelos curtos estava no centro da imagem que estava um pouco cinza, provavelmente graças à sombra de algumas nuvens pesadas de chuva. Era possível ver os ombros da garota cobertos pela camiseta e ela sorria com os lábios fechados, algo em que Flávio normalmente teria reparado – ele sempre reparava em garotas que sorriam de lábios fechados –, mas naquele momento ele só pode olhar para os olhos da garota na foto.

            Um dos olhos estava levemente mais fechado que o outro, ambos um pouco comprimidos em um formato que fazia parecer que eles estavam sorrindo junto de sua dona. Não havia olheira alguma ali, mas com os olhos apertados daquela forma havia uma leve bolsinha de pele formada embaixo deles, e talvez elas ajudassem a dar o aspecto de “olhos sorridentes”, algo no qual ele também teria reparado em qualquer outro momento. Mas não daquela vez.

            Dentro dos olhos que não estavam completamente abertos era possível ver um reflexo. Não era o reflexo de nada especial, era apenas luz sendo refletida pelas íris escuras da garota, mas Flávio tinha certeza de que estava vendo alguma coisa ali. Ele não sabia dizer exatamente o quê, mas havia alguma coisa.

            Ele apertou a combinação de botões que lhe permitiria abrir outra aba do navegador, sem ter certeza de porque estava fazendo aquilo, e no exato momento em que ele clicou nas teclas e a nova aba começou a se abrir, ele viu algo que não deveria estar acontecendo.

            Ele voltou rápido para a aba anterior, observando novamente a foto da garota. Ela tinha acabado de piscar?

            A foto ainda estava parada, como de fato deveria estar, e por mais alguns segundos, Flávio encarou aqueles olhos que por algum motivo estranho chamavam sua atenção.
            Ele devia estar com mais sono do que imaginava. Devia ser só isso. Ele fechou – fazendo cada movimento de dedos devagar, prestando atenção na foto – a aba, dessa vez sem ver nenhuma piscadela ou qualquer movimento, então desligou o computador e foi para a o chuveiro.
            Quando se deitou ele já havia conseguido tirar de sua mente a imagem da foto piscando, mas aqueles olhos ainda estavam na cabeça. O que é que ele havia visto naquele reflexo? Tinha mesmo alguma coisa nele?

            No dia seguinte, ao chegar em casa depois de um dia na faculdade e uma saída com os amigos, pouco depois das nove da noite, ele novamente se sentou ao computador, lembrando-se da foto. Foi fácil encontrar o perfil da garota em sua lista de amigos e como ela não havia postado mais nada naquele dia, a foto ainda estava ali, a primeira coisa da lista, dessa vez acompanhada de alguns “likes” e comentários que na verdade apenas continham variações do clássico “Linda!” que ocupavam boa parte das fotos do tipo.

            Ele sorriu. Dessa vez ele conseguiu reparar mais na foto – ele reparou no sorriso de lábios juntos e na curvatura dos olhos que faziam com que eles também parecessem sorrir – e de fato, era uma foto muito bonita. Mas ele sabia muito bem qual era o motivo que tinha para ter ido ver aquela foto, agora sem sono algum.

            O reflexo nos olhos tinha um formato ondulado e era bastante brilhoso. Não parecia ser nada além de luz, mas de alguma forma Flávio tinha certeza de que aquilo não podia ser apenas luz.

            Ele olhou rapidamente as outras fotos da garota, se decepcionando por não encontrar nelas nada além de uma garota bonita com quem ele estudara algum tempo antes. Era apenas aquela foto, eram apenas aqueles olhos.

            Ele voltou para a foto e a encarou por mais alguns segundos. Cansado de olhar, ele então se levantou para buscar um copo de água.

            Quando Flávio voltava para sua mesa, entrando pela porta do quarto, olhando para o monitor de um ângulo diferente, ele travou. Talvez aquilo fosse apenas impressão, mas a foto estava olhando pra ele? A posição dos olhos... Havia mudado?

            Mas o copo de fato se espatifou no chão quando ele deu mais um passo, porque dessa vez ele teve certeza. A foto havia piscado.

        Devagar, com a respiração presa, Flávio se aproximou de seu computador, vendo claramente que aqueles olhos estavam acompanhando seus movimentos, que aquele reflexo de luz se movia conforme ele também se movia. Quando ele se sentou a foto ousou outro movimento. O sorriso, até então de lábios fechados, se abriu. Em algum lugar, lá no fundo, junto com sua sanidade, ele se decepcionou com isso. Preferia sorrisos de lábios fechados. Mas não havia espaço para pensar naquilo porque o que ele estava olhando era uma foto – ele tinha certeza de que era uma foto – que estava sorrindo para ele. Agora a foto inteira, não apenas os olhos, lhe passavam aquela sensação estranha.

           A moça na foto – e ele tinha certeza de que aquela não era Paloma, pois Paloma naquele momento devia estar se preparando para dormir, já que o dia seguinte era uma terça-feira , e não sorrindo para ele do computador – acenou para ele como se a foto fosse na verdade uma janela e ela estivesse apenas do outro lado. Boquiaberto ele não reagiu por alguns instantes.

            — Você quer... Alguma coisa?

            Ele fez a pergunta, inseguro, sem ter certeza sequer se ela podia ouvir o que ele disse, mas se aliviou quando notou que a foto, de certa forma ansiosa, balançou a cabeça positivamente.

            — E o que é?

           A garota da foto olhou para os lados, mordendo os lábios, parecendo um pouco nervosa, e então seus olhos se arregalaram como se houvesse tido uma ideia brilhante. Ela apontou para o canto da foto e ele procurou por algo.

            — O que? No canto da foto?

            A garota balançou a cabeça negando e erguendo mais seu braço, apontando bem para o canto superior esquerdo da foto. Ele seguiu com os olhos o dedo dela e viu que ela apontava para a foto de Paloma. A mesma foto que se movia ali a sua frente, mas a miniatura do perfil da garota. Aquela foto não se movia. Tinha olhos sorridentes, tinha os lábios fechados, mas nela não havia nada fora do comum. Era a foto de perfil de uma garota bonita e apenas isso.

            — Você quer a Paloma?

            Flávio ficou um pouco assustado. Com que tipo de entidade ele estava lidando ali? Até aquele momento não havia parado para pensar nisso – não havia parado para pensar em nada, na verdade - e aquilo podia muito bem ser alguma espécie de demônio. Flávio viu a garota na foto balançar a cabeça novamente. Ela então passou os braços pelos cantos de sua foto, indicando a própria imagem, e então apontou para a foto de Paloma.

            — Você quer que eu te mostre pra ela?

            A garota na foto sorriu abertamente, os olhos bem abertos, e balançou a cabeça, confirmando.

            — Eu... Eu tenho opção?

       O sorriso então diminuiu, devagar, e os olhos se entristeceram. Ela os abaixou e confirmou com a cabeça. Ele não precisava fazer aquilo se não quisesse. Ela então olhou para ele de novo, súplica em seus olhos.


                                                                                ***


            Flávio desceu do ônibus depois de menos de dez minutos dentro dele. Devia estar há três quilômetros de casa, no máximo, e na verdade podia ter caminhado, mas era uma noite um pouco fria e justamente quando ele passava pelo ponto, o ônibus apareceu.

            Ele tirou o celular do bolso do casaco, olhando para a imagem que ele havia passado para o aparelho, junto de o-que-quer-que-fosse-que-estivesse-na-imagem. A moça da foto olhava por sua janela, ansiando por ele mostrar para ela onde exatamente estavam. Ele ergueu a tela do celular para a rua e depois olhou para ela novamente.

            A garota da foto virou de costas para Flávio e apontou para a parede atrás dela na imagem, o que Flávio imaginou querer dizer que ele devia ir em frente, na direção em que ela apontava, o que ele fez. Sempre deixando a moça da foto ver o caminho, ele seguiu por alguns minutos as instruções dela, passando por algumas ruas sem movimento às onze horas da noite, ruas cheias de casas iluminadas por lâmpadas de varandas e janelas que davam para cômodos de luz acesa. Quando ele chegou em frente a um sobrado azul que tinha um portão branco, a menina da foto se agitou, apontando para o sobrado.

            — Essa aqui? Eu tenho que chamar ela?

            A foto balançou a cabeça afirmando que sim.

            Respirando fundo, Flávio se aproximou do portão e procurou o botão da campainha.

          Um pânico forte tomou conta do garoto depois de ele ter apertado o botão. O que ele devia fazer? Apenas mostrar a foto para a garota e esperar ela dar um jeito de falar com a imagem? Esperar que ela não saísse correndo ao ver uma imagem se mexer daquele jeito? E se ele tivesse enlouquecido e apenas estivesse imaginando os movimentos, a garota veria apenas uma foto de si mesma e pensaria que ele estava perseguindo ela ou coisa do tipo. O que devia fazer?

            Então Paloma saiu de dentro de casa.

           Ela estava vestindo calças jeans, um par de pantufas e ele podia ver a camisola dela por baixo do casaco pesado que a garota estava fechando para sair naquele frio depois de ele ter provavelmente tocado a campainha minutos antes de ela entrar debaixo das cobertas. Os cabelos eram curtos como na foto, mas o rosto não mostrava um sorriso, mas sim um pouco de preocupação, provavelmente por causa do horário.

            — Flávio? Flávio Moura? O que você está fazendo aqui?

            Ela se aproximou do portão, reconhecendo ele e trocando a expressão preocupada por uma expressão curiosa e levemente desconfiada, erguendo uma das sobrancelhas.

            Ele olhou novamente para a tela do celular e pode ver o rosto aflito da mesma garota que estava à sua frente balançar a cabeça apressadamente, quase uma súplica para que ele virasse o celular para ela.

            — Eu... Eu não sei bem. Vim te mostrar isso aqui.

            Ele virou a tela do celular para a garota, colocando o braço entre as grades do portão.

         Primeiro a expressão dela foi de curiosidade, em seguida, surpresa, mas por fim, ela começou a chorar, e ele não entendeu por quê.

            — Posso?

            Ela perguntou entre as lágrimas, esticando as mãos para o aparelho sem tirar os olhos dele. Ele deixou que ela tirasse o celular de suas mãos e a viu cair de joelhos, ainda chorando. Havia uma luz toda especial saindo da tela de seu telefone e a garota colocou o celular no chão, com a tela apontando para cima. Ele mandava uma luz para o ar, colocando uma iluminação disforme, que parecia estar se esforçando em montar uma imagem sobre o celular. A garota olhava para essa imagem com firmeza, prestando atenção e ainda chorando.

            — Eu também te amo!

           Depois dessas palavras, a garota sorriu junto com suas lágrimas, e a luz começou a ficar mais fraca. Logo não havia mais luz, apenas a do celular. A garota olhou para ele, pegou o aparelho do chão e o entregou para o garoto.

            Na tela havia a mesma foto do perfil da garota, ela estava na mesma posição, e não havia nada que chamasse a atenção de maneira estranha, mas havia algo novo na foto.

            Ao lado da garota havia uma mulher. Elas eram bastante parecidas, sim, mas a mulher era mais velha. Ela estava dando um beijo na bochecha da garota, e Flávio lembrou-se daquele rosto. Aquela era a mãe de Paloma, que havia morrido pouco mais de um ano antes em um acidente de carro.

            — Será... Será que você pode me passar essa foto depois?

            A voz dela ainda era chorosa, mas tinha um tom de alegria.

            Ele olhou para ela e sorriu, entendendo um pouco do que havia acontecido ali.

            — Posso, posso sim.

           Ela colocou a mão no bolso do casaco e apertou o botão do controle do portão, deixando-o se abrir um pouco. Então a garota deu um passo na direção de Flávio e o abraçou.

          — Obrigada. Talvez outra hora eu te explique o que ela me disse e porquê. E então você pode me explicar sobre como isso aconteceu também.

          Ela falava baixinho e meio rindo, meio chorando.

           — É sério, obrigada.

        Ela então soltou Flávio, se despediu dele e entrou em casa. Eles podiam conversar depois, agora era um momento dela.

           Flávio olhou novamente para a foto da mulher beijando sua filha e sorriu. Aquilo sim era algo especial. Ele se virou e caminhou para casa, mãos nos bolsos quentes, sorriso no rosto, feliz pelo que havia feito por uma mãe e sua filha naquela noite.

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