segunda-feira, 27 de maio de 2013

Crônicas de Guerra (1)

Isso é algo que eu comecei a escrever faz... Não me lembro, um ano e meio atrás? É, acho que é isso.
Eu estava relendo agora o terceiro capítulo - que foi onde parei de escrever - a a pequena Felicity (vocês vão conhece-la, não se preocupem) me deu vontade de continuar com aquilo. Vou postar os capítulos aos poucos. Então é, eu vou ao menos mostrar pra vocês as crônicas de um futuro que pode vir a acontecer.



Crônicas de Guerra - Willian e Clarice


Ele passou a faca no pescoço do homem armado e observou ele cair. Nem um dos dois era um soldado, mas havia muito tempo que aquela guerra deixou de ser dos exércitos para ser do mundo todo.
Londres já não era mais a mesma. Ele olhou para o céu e viu o cinza sombrio daquela cidade. Era provavelmente a única coisa que havia se mantido do tempo de antes da guerra, aquela cidade continuava sombria. Mas agora o mundo inteiro era assim.
— Depressa Willian, a gente tem que voltar pro abrigo antes da ronda chegar.
— Eu sei, eu sei.
Ele se apressou em colocar as munições da arma do soldado em sua mochila. O casal correu.
Willian tinha quatorze anos quando a guerra começou. Logo perdeu os pais, tios, primos, irmãos... Ele fora tudo que sobrara de sua família. A única pessoa que ainda estava com ele do tempo de antes da guerra era Clarice.
Grandes amigos, ele conhecia o jeito que beirava a psicopatia da garota. Era provavelmente o único que tinha certeza de que aquilo não era apenas algo para chamar atenção, coisa que não era exatamente rara.
Dizem que só se conhece alguém de verdade quando se vive uma guerra. Mas bastou ver aquela garota o início da batalha que ele soube que realmente a conhecia desde os tempos de paz.
As duas crianças de apenas quatorze e doze anos se divertiam assistindo um filme na sala da casa dela quando a primeira invasão Russa aconteceu na Inglaterra. Ao início da invasão a garota correu para debaixo da cama ao ouvir os tiros que mataram seus pais à porta da outra sala. Willian ficara frente à televisão, exposto, pronto para enfrentar os soldados com as mãos nuas e, obviamente, morrer tentando salvar a garotinha. Ele só não esperava que ela voltasse de seu quarto com facões que, ao lado das crianças, pareciam espadas. Os dois soldados que entraram não tiveram sequer chance contra a raiva da pequena Clarice. O facão de Willian, que ele não sabia sequer de onde ela havia tirado, nem mesmo ficou sujo. Ele só pôde sorrir ao admirar a garota.
Desde então os dois viveram quatro anos juntos, apenas por si próprios, e o último anos em uma brigada de refugiados que encontraram. Eram os melhores saqueadores do grupo. Traziam boa parte dos suprimentos da brigada, juntamente a outros pares de saqueadores.
Eles corriam dentro do prédio ocupado por soldados britânicos, eliminando qualquer vida que encontrassem como se fosse algo normal de se fazer. Depois de cinco anos, era o que havia se tornado. E depois de cinco anos daquela guerra que já destruíra a civilização, não importava mais de quem eram aqueles soldados. Só importava que eles deviam invadir, matar, saquear e voltar para a brigada.
Depois de chegar ao estoque do prédio que fora cuidadosamente estudado a semana inteira, Clarice começou a jogar os suprimentos pela janela; estes caiam no caminhão que haviam deixado lá embaixo.
Willian ajudou-a no início, mas então parou e começou a pensar.
— O que você está fazendo moleque? Anda, me ajuda.
Ele saiu de seus devaneios.
— Uma vez eu li um livro. Ele dizia que todos os velhos “Sentam e recordam e perguntam o que teria acontecido se tivessem feito tudo ao contrário”. O que você acha Clarice?
Ela parou por um segundo. Então riu, sarcástica, e voltou ao trabalho.
— Teríamos morrido na primeira invasão. Agora vem me ajudar.
Ele sorriu. Chegou por trás dela e deu-lhe um beijo na nuca que a fez se arrepiar.
— É, você tem razão.
Então passou a jogar os sacos de suprimentos pela janela junto com Clarice. Aquela guerra ainda iria longe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário