Eu estava relendo agora o terceiro capítulo - que foi onde parei de escrever - a a pequena Felicity (vocês vão conhece-la, não se preocupem) me deu vontade de continuar com aquilo. Vou postar os capítulos aos poucos. Então é, eu vou ao menos mostrar pra vocês as crônicas de um futuro que pode vir a acontecer.
Crônicas de Guerra - Willian e Clarice
Ele passou a faca no pescoço do
homem armado e observou ele cair. Nem um dos dois era um soldado, mas havia
muito tempo que aquela guerra deixou de ser dos exércitos para ser do mundo
todo.
Londres já não era mais a
mesma. Ele olhou para o céu e viu o cinza sombrio daquela cidade. Era
provavelmente a única coisa que havia se mantido do tempo de antes da guerra,
aquela cidade continuava sombria. Mas agora o mundo inteiro era assim.
— Depressa Willian, a gente
tem que voltar pro abrigo antes da ronda chegar.
— Eu sei, eu sei.
Ele se apressou em colocar
as munições da arma do soldado em sua mochila. O casal correu.
Willian tinha quatorze anos
quando a guerra começou. Logo perdeu os pais, tios, primos, irmãos... Ele fora
tudo que sobrara de sua família. A única pessoa que ainda estava com ele do
tempo de antes da guerra era Clarice.
Grandes amigos, ele
conhecia o jeito que beirava a psicopatia da garota. Era provavelmente o único
que tinha certeza de que aquilo não era apenas algo para chamar atenção, coisa
que não era exatamente rara.
Dizem que só se conhece
alguém de verdade quando se vive uma guerra. Mas bastou ver aquela garota o
início da batalha que ele soube que realmente a conhecia desde os tempos de
paz.
As duas crianças de apenas
quatorze e doze anos se divertiam assistindo um filme na sala da casa dela
quando a primeira invasão Russa aconteceu na Inglaterra. Ao início da invasão a
garota correu para debaixo da cama ao ouvir os tiros que mataram seus pais à
porta da outra sala. Willian ficara frente à televisão, exposto, pronto para
enfrentar os soldados com as mãos nuas e, obviamente, morrer tentando salvar a
garotinha. Ele só não esperava que ela voltasse de seu quarto com facões que,
ao lado das crianças, pareciam espadas. Os dois soldados que entraram não
tiveram sequer chance contra a raiva da pequena Clarice. O facão de Willian,
que ele não sabia sequer de onde ela havia tirado, nem mesmo ficou sujo. Ele só
pôde sorrir ao admirar a garota.
Desde então os dois viveram
quatro anos juntos, apenas por si próprios, e o último anos em uma brigada de
refugiados que encontraram. Eram os melhores saqueadores do grupo. Traziam boa
parte dos suprimentos da brigada, juntamente a outros pares de saqueadores.
Eles corriam dentro do
prédio ocupado por soldados britânicos, eliminando qualquer vida que
encontrassem como se fosse algo normal de se fazer. Depois de cinco anos, era o
que havia se tornado. E depois de cinco anos daquela guerra que já destruíra a
civilização, não importava mais de quem eram aqueles soldados. Só importava que
eles deviam invadir, matar, saquear e voltar para a brigada.
Depois de chegar ao estoque do
prédio que fora cuidadosamente estudado a semana inteira, Clarice começou a
jogar os suprimentos pela janela; estes caiam no caminhão que haviam deixado lá
embaixo.
Willian ajudou-a no início,
mas então parou e começou a pensar.
— O que você está fazendo
moleque? Anda, me ajuda.
Ele saiu de seus devaneios.
— Uma vez eu li um livro.
Ele dizia que todos os velhos “Sentam e recordam e perguntam o que teria
acontecido se tivessem feito tudo ao contrário”. O que você acha Clarice?
Ela parou por um segundo.
Então riu, sarcástica, e voltou ao trabalho.
— Teríamos morrido na
primeira invasão. Agora vem me ajudar.
Ele sorriu. Chegou por trás
dela e deu-lhe um beijo na nuca que a fez se arrepiar.
— É, você tem razão.
Então passou a jogar os
sacos de suprimentos pela janela junto com Clarice. Aquela guerra ainda iria
longe.
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