Eu tive poucos contatos com o nome Neil Gaiman antes desse livro. Eu não sabia que Stardust e Coraline eram dele até pouco tempo atrás, então, apesar de ter adorado ambos, não vou enquadrar nos dois contatos com o nome.
O primeiro foi com uma referência de Sandman. Eu fiquei curioso, fui atrás e descobri quem era Neil Gaiman e "quem" era Sandman.
O segundo foi pouco antes do lançamento de "O Oceano no Fim do Caminho", quando a página do Facebook da Intrínseca começou a fazer publicidade do livro e eu assisti um episódio de "Os Simpsons" com participação de Neil Gaiman. (Episódio "The Book Job"). E só. Devo dizer que eu adoro esse autor agora.
Eu participei de, imagino, três ou quatro concursos para ganhar e livro e não ganhei nenhum deles, então um dia, andando pela livraria do shopping, com os auto-falantes da loja avisando que eles estavam encerrando o dia, eu me deparo com o livro. Eu já conhecia a capa, mas pegá-lo na minha mão?
Esteticamente falando, "O Oceano no Fim do Caminho" é o livro mais lindo que eu tenho (seguido de perto por "Deixe Ela Entrar"). As letras em relevo, o azul magnífico da capa, aquela garota mergulhada em um oceano sem fim... É lindo. Lindo. Mas vamos ao interior do livro, sim?
Eu já estivera ali, não estivera, muito tempo atrás? Tinha certeza que sim. As memórias de infância às vezes são encobertas e obscurecidas pelo que vem depois, como brinquedos antigos esquecidos no fundo do armário abarrotado de um adulto, mas nunca se perdem por completo.
O livro é encantador, quase no sentido literal da palavra... Por exemplo, agora, depois de todas as duzentas páginas, eu acabo de perceber que não sei o nome do nosso protagonista. Será que ele é sequer mencionado no livro? Eu não me lembro. Depois de uma rápida folheada no livro, desisti de procurar. Gostei da sensação de não lembrar.
Nosso protagonista tem quarenta e sete anos. Ele visita novamente sua cidade natal, Sussex, Inglaterra, para um funeral. Passa pela antiga casa onde morava - onde uma nova está erguida - e então vai para o fim da rua, entrando na Fazenda Hempstock, onde encontra a Sr. Hempstock e o pequeno lago no fim do caminho atrás da casa.
Um dia, quando ele tinha apenas sete anos, a jovem Littie Hempstock, de onze, o convenceu de que aquilo era o oceano. E lá, olhando para o lago, as memórias do que aconteceu alguns dias após seu aniversário de sete anos voltam.
A família está em má situação financeira e tem de alugar o quarto dele. Um dos inquilinos um dia se suicida no carro da família, em frente a fazenda Hempstock, e isso acorda algo que não deveria ser acordado.
Realismo Fantástico é, provavelmente, meu gênero literário favorito. A criatura acordada é um problema, mas sempre existem coisas piores.
"O Oceano no Fim do Caminho" nos leva a vasculhar nossa própria inocência infantil. O tempo em que o fato de leite sair das vacas era algo incrível (Eu parei de tomar leite quando descobri isso), o tempo onde temos certeza de que somos imortais mas temos medo do escuro.
Eu vi o mundo no qual andara desde o meu nascimento e compreendi sua fragilidade, entendi que a realidade que eu conhecia era uma fina camada de glacê num grande bolo de aniversário escuro revolvendo-se com larvas, pesadelos e fome. Eu vi o mundo de cima e de baixo. Vi que havia padrões, portões e caminhos além da realidade, da mesma forma que a água do oceano me preenchia.
Tudo sussurrava dentro de mim. Tudo falava para tudo, e eu sabia tudo.
É um livro permeado por uma dose alta de fantasia. Uma fantasia que poderia ser real. É divertido e fácil de ler. Estamos na visão de uma criança de sete anos, rodeada por inocência e medos, e ela tem que lidar com algumas coisas que não são do mundo dela (Nem do infantil, nem do humano) e talvez isso seja um problema que muitos de nós passemos, dentro de nossa imaginação ou não. Afinal, acho que nós nunca saberemos de tudo. Não por muito tempo.
É um livro que eu recomendo bastante. E é, digo de novo, um livro lindo. Criatura, como ele é lindo.
Páginas: 205
Editora: Intrínseca
ISBN: 978-85-8057-368-8

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